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Como a Garmin enfrentou as Big Techs
O Turnaround de US$40Bi

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Oi pessoal! Depois de um hiato o bsb está de volta. E voltamos para ficar! Estou animado para compartilhar com vocês o pipeline de artigos. Em breve também teremos uma série de outras novidades. Agora vamos ao artigo:
Num mundo cada vez mais dominado pelas Big Techs, é fundamental conhecer o caso da Garmin. É daquelas histórias inspiradoras que depois de ler ficamos com a impressão que tudo é possível. A Garmin conseguiu se reinventar e prosperar mesmo sofrendo ameaças existenciais da Apple e Google.
Ela entrou no meu radar primeiro pela performance. Em 2024 sua ação subiu +63%, chegando a um valor de mercado de US$40Bi. Isso me deixou curioso, mas foi meu pai quem deu o empurrão final, ao dizer: “Filho, por que você usa um relógio da Garmin? Você diz que ninguém faz produtos melhores que a Apple, mas não usa Apple Watch. Por que?”.
Abaixo o resumo de um minuto:
A Garmin é uma empresa de tecnologia que, por acaso, foca em GPS. O objetivo sempre foi criar produtos para novos mercados, desde que houvesse demanda suficiente e preços competitivos com boas margens.
O lançamento do iPhone com GPS e do Apple Watch foram dois momentos que testaram a companhia, que conseguiu se reinventar, sobreviver e prosperar
Os três pilares da Garmin: 1) Pesquisa & Desenvolvimento; 2) Controle do Produto via verticalização; 3) Foco no Cliente
Governo, o financiador da inovação
Virou moda no Vale do Silício criticar o governo, o que é uma hipocrisia. O Vale só existe graças ao apoio governamental, como já discuti em outro artigo. A própria Internet e o GPS foram criações do governo.
Em 1973, o Departamento de Defesa dos EUA lançou o programa do Sistema de Posicionamento Global (GPS) para navegação via satélite, inicialmente para uso militar na Guerra Fria. Um satélite protótipo subiu em 1978, e a constelação completa de 24 satélites ficou operacional em 1993. O GPS foi dividido em duas redes:
Serviço de Posicionamento de Precisão (PPS): Destinado ao uso militar, com precisão de até 10 metros.
Serviço de Posicionamento Padrão (SPS): Voltado ao público civil e gratuito, mas com precisão reduzida para 100 metros. Esta foi uma decisão do Departamento de Defesa, para evitar que inimigos utilizassem a rede.
No início, o GPS foi adotado por petroleiras, donos de iates e aviões particulares. O alto custo das antenas e receptores limitava a expansão do serviço.
Empreendedores Inusitados
A Garmin foi fundada por Gary Burrell e Min Kao (o nome vem da junção de Gary e Min). Burrell, nascido no Kansas, tinha mestrado em engenharia elétrica pela Wichita State University. Kao, de Taiwan, se mudou para os EUA para estudar e concluiu um PhD em engenharia elétrica na Universidade do Tennessee.
Poderia ser a clássica história de dois jovens que foram ao Vale do Silício, captaram milhões e criaram uma startup de sucesso. Mas não foi.
Kao tinha 50 anos e Burrell, 52, quando fundaram a Garmin em 1989. Colegas de trabalho, saíram para jantar e se animaram com o potencial do GPS para produtos de consumo. Olha a foto dos dois abaixo e me diga se você não ficaria inspirado em trabalhar para eles?

Min Kao e Gary Burrell
Para financiar a empresa, não buscaram Venture Capital. Captaram US$ 4 milhões com suas economias e investimentos de familiares e amigos. Abriram uma fábrica no Kansas, onde a empresa é sediada até hoje, e nunca mais precisaram levantar dinheiro.
Empresa de Engenheiros
Em 1990, a Garmin lançou seu primeiro produto: um dispositivo de navegação GPS para pequenos barcos e aviões. O sucesso foi imediato — até o Exército Americano comprou os dispositivos para a Guerra do Golfo.
Cinco anos depois, a empresa faturava mais de US$ 100 milhões. Apesar do sucesso, os fundadores mantiveram a mentalidade de engenheiros. Nos anos 90, a tendência era construir negócios asset-light, terceirizando atividades que exigiam muito capital. Pela lógica da época, a Garmin deveria focar no desenvolvimento de produtos e terceirizar o resto.
Kao e Burrell seguiram outro caminho. A empresa cuidava de tudo: desenvolvimento, produção, armazenagem, distribuição, marketing e suporte. O objetivo era a máxima verticalização, tanto que a Garmin possui até lojas próprias.

Loja Garmin
Isso tinha dois custos. O primeiro, financeiro — investir em fábricas era caro. O segundo, de tempo — montar toda a cadeia demandava anos. Mas, para os fundadores, a estratégia compensava. Controlando a cadeia de produção e distribuição, poderiam adaptar-se rapidamente a novas aplicações do GPS.
GPS para Carros
Em 1998, a Garmin foi pioneira ao lançar um navegador portátil para carros. Dois anos depois, o presidente Clinton assinou uma nova política que igualou a qualidade do GPS civil à militar. Isso não foi por bondade — os militares já tinham tecnologia para impedir o uso do GPS por nações rivais.
A mudança ampliou o mercado potencial do GPS, e a Garmin estava na melhor posição para aproveitar. Em dezembro de 2000, a empresa fez seu IPO e cresceu por oito anos seguidos. A receita saltou de US$346 milhões em 2000 para US$ 3.5 bilhões em 2008. Na época, dispositivos para carros representavam 70% das vendas.
Um crescimento dessa magnitude não ocorre no vácuo. Vários fatores impulsionaram a Garmin:
Precisão melhorada: Mudanças regulatórias elevaram a qualidade da navegação.
Marca e confiabilidade: A Garmin era pioneira, e o GPS é um sistema que não pode falhar.
Integração com Wi-Fi: Melhor roteamento e dados de tráfego.
Redução de custos: A demanda por eletrônicos barateou componentes como microchips, telas LCD e baterias.
Curva de experiência: Produção em escala tornou os dispositivos mais baratos e eficientes.
Colocando em números. No início, os primeiros GPS custavam mais de US$ 10 mil. O StreetPilot foi lançado a US$ 600, caiu para US$ 300 em 1998 e ganhou novas funções — voz, tela colorida e mapas mais detalhados.
No meio do Caminho tinha uma Maçã
Em 2007, a Apple lançou o iPhone. Um ano depois, chegou o Google Maps. Juntos, ofereceram um serviço de GPS gratuito e mais conveniente, direto no celular. Enquanto isso, o GPS da Garmin custava US$ 300 e exigia um dispositivo próprio. De uma hora para outra, a empresa foi completamente disruptada.

iPhone com Google Maps
Nos dois anos seguintes, as vendas caíram 25%, as margens encolheram e as ações despencaram 90%. A crise financeira de 2008 só piorou o cenário. Poderia ter sido o fim.
Como competir com Apple e Google oferecendo um serviço gratuito dentro do produto de maior sucesso de toda a história?
Pivot para o mercado de Relógios
Kao e Burrell construíram a Garmin como uma empresa de tecnologia que, por acaso, focava em GPS. O objetivo sempre foi criar produtos para novos mercados, desde que houvesse demanda suficiente e preços competitivos com boas margens.
Foi assim que a empresa migrou de barcos para aviões e, depois, para carros. Seguindo esse processo disciplinado, a equipe de P&D identificou o segmento fitness como promissor já em 2003. A ideia surgiu de funcionários apaixonados por corrida, que criaram um protótipo para uso próprio. No mesmo ano, a Garmin lançou seu primeiro relógio, o Forerunner 101.

Forerunner 101
O que começou como um projeto paralelo acabou redefinindo a empresa duas décadas depois — especialmente após o iPhone e o Google Maps devastarem o mercado de GPS para carros.
Aqui vale uma ressalva. O Forerunner foi lançado antes do iPhone. Não foi uma mudança abrupta de produto. A verdade é que a transição de GPS para carros para relógios esportivos não foi simples. A primeira tentativa da Garmin foi um erro. Para enfrentar o iPhone, a empresa tentou criar seu próprio celular. Em 2008, lançou o G60 Nüvifone em parceria com a Asus — um telefone com GPS, tela de 3,5 polegadas e Windows Mobile. Produto errado no momento errado. Foi um fracasso.

G60 Nüvifone
A segunda tentativa foi lançar apps de navegação por assinatura para iPhone e Android. Ninguém queria pagar por algo que já vinha de graça no celular.
Enquanto isso, o Forerunner 101 ganhava tração. Em 2008, os vestíveis já representavam 10% da receita da empresa. O crescimento do segmento fez a Garmin redirecionar seus esforços. Os relógios evoluíram e ganharam novos recursos: rastreamento de atividades, planos de treino personalizados, monitoramento de sono, mapas, bateria mais longa e luzes de alerta para segurança de atletas.
O gráfico abaixo mostra a mudança de receita por tipo de produto:

Fonte: The Economist
Para acelerar a adoção, a Garmin também segmentou seus clientes e criou dezenas de modelos, permitindo que cada consumidor escolhesse o que realmente precisava e podia pagar.
Tinha uma Maçã no meio do caminho
A Garmin retomou o crescimento e, em 2015, alcançou US$1Bi em vendas de relógios. Foi então que, mais uma vez, a empresa fundada por Steve Jobs cruzou seu caminho, anunciando o Apple Watch.

Apple Watch
Muitos fabricantes de relógios quebraram. O Apple Watch redefiniu o setor e já vendeu cerca de 300 milhões de unidades. Mas a Garmin não apenas sobreviveu, ela prosperou.
Aprendeu com o episódio do iPhone e evitou os mesmos erros. Em vez de competir diretamente com a Apple, focou no seu nicho.
Quem compra um Garmin quer um relógio esportivo: durável, robusto e com bateria de longa duração. Enquanto o Apple Watch dura 36 horas por carga, um Garmin pode durar de uma semana a dezenas de dias, dependendo do modelo. Além disso, a Garmin adicionou funções para atletas, como estimativas de VO₂ máximo, carga de treinamento, energia corporal e recuperação. Tudo isso em vez de recursos tradicionais de smartwatches.
A Garmin também criou uma comunidade focada em esporte. Pelo app da empresa, usuários compartilham conquistas, histórico de atividades e métricas de saúde, além de competir em rankings. Isso fortalece a marca e complementa a estratégia de marketing.
A empresa ainda ajustou sua comunicação para destacar as diferenças entre os produtos. Quando a Apple lançou o seu relógio Ultra, a Garmin respondeu com uma campanha que virou referência: "Nós medimos bateria em meses, não em horas."

Post da Garmin alfinetando o Apple Watch
O Apple Watch é para quem quer praticidade no dia a dia: mensagens, chamadas, pagamentos (Apple Pay) e outras integrações com o iPhone. Mas sua bateria dura, no máximo, 30 horas e o dispositivo é mais frágil. E respondendo à pergunta do meu pai no início do artigo: eu não uso um Apple Watch porque, se meu relógio me avisasse a cada mensagem do WhatsApp, eu cortaria meu braço fora.
No fim, a grande lição é que a Garmin sempre foi, acima de tudo, uma empresa de tecnologia.
Garmin: Empresa de Tecnologia Raiz
1) Pesquisa & Desenvolvimento
Um erro comum de empresas que lançam um produto de sucesso é devolver todo o lucro aos acionistas por meio de dividendos, juros sobre capital próprio ou recompra de ações. Mas a verdade é a seguinte: empresas de tecnologia exigem muito capital. Num negócio de ativos físicos, como de aluguel de equipamentos, a necessidade de investimento é obvio – para crescer é preciso comprar mais equipamentos. No caso de empresas de tecnologia o investimento se dá em pesquisa & desenvolvimento. São pessoas, laboratórios e ferramentas.
À medida que a Garmin cresceu, os investimentos em tecnologia aumentaram tanto em valores absolutos quanto como percentual da receita. Para comparar:
2000: US$ 22 milhões investidos em P&D (6% da receita), com 200 funcionários (15% da equipe total).
2023: US$ 889 milhões investidos em P&D (17% da receita), com 5.500 funcionários (28% da equipe total).

Fonte: Garmin
Empresas de tecnologia operam com margens altas, mas em mercados que mudam rapidamente. Para sobreviver, precisam ser financeiramente conservadoras e reinvestir capital no próprio negócio. Não há muito espaço para engenharia financeira.
Notem como o investimento em P&D aumentou nos anos de 2009 em diante.

Fonte: Garmin
Quando o GPS automotivo, seu principal produto, começou a perder relevância, a Garmin dobrou a aposta em inovação. Os fundadores poderiam ter sacado dinheiro e deixado a empresa definhar. Em vez disso, foram para o ataque — e nunca mais saíram dessa posição. Seus investimentos em P&D, como percentual da receita, superam os de algumas das empresas mais inovadoras da atualidade.

Dados de 2023 retirado dos sites das próprias empresas
2) Controle do Produto
Empresas de tecnologia operam dentro de ecossistemas. Ser verticalizado nem sempre é a melhor escolha, mas para a Garmin, isso garantiu controle total do produto e rapidez na adaptação. A empresa passou a gerenciar prazos, qualidade e serviços com mais eficiência. Os fundadores sabiam que terceirizar funções facilitaria no curto prazo. Mas, no longo prazo, controlar a cadeia trouxe mais inovação, menos riscos e custos, além de maior escalabilidade.
Esse modelo também fortaleceu seu relacionamento com clientes que dependiam do GPS da Garmin. Empresas de aviação (ex: Embraer), marítimas (ex: Yamaha) e automotivas (ex: BMW) possuem ciclos longos de desenvolvimento e tendem a manter os mesmos fornecedores. A Garmin insistiu por anos até conquistar essas contas, consolidando sua posição.
3) Foco no Cliente
Já mencionei esse ponto, mas fiquei refletindo sobre sua origem. A Garmin passou décadas em setores altamente regulados, como aviação e automotivo, o que influenciou sua abordagem no desenvolvimento de produtos. A empresa não apenas criou novos dispositivos, mas também expandiu sua atuação dentro dos mercados em que já operava. No setor automotivo, vende câmeras veiculares para caminhões e motos. No marítimo, sonares de pesca, piloto automático e mapeamento por radar. Em aviação, controles de voo.

Câmera para barcos da Garmin
Num mundo cada vez dominado por poucas empresas, as 7 Magnificas respondem por cerca de 50% do valor de mercado da Nasdaq, é inspirador entender como empresas conseguem prosperar mesmo enfrentando as Big Techs. E uma história de empreendedorismo que começou depois que os empreendedores tinham mais de 50 anos é o tipo de coisa que precisa ser mais conhecida.
E você? Gostou do artigo? Eu adoraria o seu feedback. Pode responder para esse e-mail que eu vou receber, ou direto no [email protected].
Grande abraço,
Edu
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