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As Três Lições da DeepSeek
Criação e Captura de Valor são coisas diferentes

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O DeepSeek virou o mundo da tecnologia de cabeça para baixo. Desde seu lançamento em 15 de janeiro, esse chatbot chinês já passou de 2 milhões de downloads, superando até o ChatGPT na Apple Store. Criado pela startup DeepSeek, fundada em 2023 por Liang Wenfeng, o modelo se destaca pelo raciocínio avançado, especialmente em matemática e programação. Esse fenômeno traz três grandes lições.
Por que a DeepSeek impressionou tanta gente?

O grande choque foi sua eficiência. Enquanto modelos similares exigem mais de US$100 milhões em investimentos, a startup chinesa diz ter treinado o DeepSeek por apenas US$5,6 milhões. A primeira reação do mercado foi revisar projeções para empresas como Nvidia e TSMC. Mais de US$1,5 trilhão em valor de mercado evaporou. Se desenvolver IA custa menos, a demanda por GPUs cai, forçando o setor a reavaliar suas projeções. Como esse mercado depende de crescimento para justificar seus valuations, o impacto foi brutal. Por fim, enquanto a OpenAI mantém seus modelos fechados (mesmo tendo "Open" no nome), o DeepSeek é open-source. Isso permite que desenvolvedores do mundo todo acessem, modifiquem e aprimorem o modelo, impulsionando uma colaboração global sem precedentes na IA.
Eu vejo três grandes lições neste episódio:
A China é uma potência de IA
As Leis do Vale do Silício não são sagradas
O Fim do Começo
1) A China é uma potência de IA
Depois de morar sete anos nos EUA, aprendi o quanto o país é voltado para si. No Brasil, consumimos quase tudo sob a ótica americana, o que nos faz ignorar o que acontece na China.
Mas a verdade é que a China é um dos mercados mais importantes para IA. Três razões:
Tamanho – São mais de 1,4 bilhão de habitantes
Empresas bilionárias – A China já criou gigantes acima de US$100Bi em diferentes eras tecnológicas:
Na Era da Internet: Tencent (US$472Bi), Alibaba (US$234Bi), Baidu (US$112Bi)
Na Era dos Smartphones: Bytedance (US$250Bi), Pinduoduo (US$120Bi), Meituan (US$120Bi), JD (US$100Bi)
Capacidade de criação de produtos globais – Empreendedores chineses vêm provando que sabem escalar produtos globalmente:
A Bytedance, dona do TikTok, construiu um império baseado em IA e tem mais de 1,5 bilhão de usuários fora da China
A Temu, marca da Pinduoduo, vem disruptando o e-commerce
A Shein, avaliada em US$66Bi, é provavelmente a empresa de moda mais popular do mundo
A força da China vem da seguinte combinação:
Gigantes da Internet como Baidu, Alibaba, Tencent e Bytedance
Empresas de tecnologia como a Huawei
Instituições de pesquisa como a Tsinghua University
Centenas de startups de IA
Apoio governamental, com IA como prioridade no Plano Quinquenal (2021-2025)
O vídeo abaixo me faz pensar que a China já estava muito adiante, eu que não tinha percebido. Os robôs do vídeo estão a venda e podem ser comprados. Parece que o futuro já chegou.
Uma visão cínica dessa análise diria que a China é apenas uma das líderes em IA. Mas o DeepSeek sugere algo maior: e se a China for a líder?
Isso levanta uma questão: como isso é possível sem acesso a GPUs de última geração da Nvidia, bloqueadas pelos EUA?
Vamos às vantagens exclusivas da China:
Mais dados – Empresas chinesas acessam os mesmos dados globais que as americanas, mas também têm um trunfo: dados locais. Gigantes como Tencent e Alibaba coletam trilhões de interações de bilhões de pessoas. E o governo restringe esse acesso apenas a empresas nacionais.
Mais energia – A China tem 57 usinas nucleares ativas, está construindo mais 29 e aprovou 11 novas. Enquanto isso, os EUA não têm nenhum novo reator em construção. IA consome enormes quantidades de energia, e a China está se preparando para suprir essa demanda.
Mais trabalho manual – IA precisa de dados estruturados e catalogados. Nos EUA, esse trabalho é terceirizado para países como Vietnã e Bangladesh. Na China, ele acontece dentro do próprio país, garantindo controle e escala.
Mas o que estava faltando? E por que a DeepSeek?
Parte da resposta está na mentalidade de seu fundador e o foco em inovação real.

Fundador da DeepSeek à direita
Seguem alguns trechos da única entrevista que encontrei dele:
“Acreditamos que, à medida que a economia se desenvolve, a China deve gradualmente se tornar uma contribuidora, em vez de apenas se beneficiar sem contribuir. Nos mais de 30 anos da onda de tecnologia da informação (TI), basicamente não participamos da inovação tecnológica real.
(…) O que nos falta em inovação definitivamente não é capital, mas sim confiança e conhecimento sobre como organizar talentos de alta densidade para uma inovação eficaz.
(…) O que vemos é que a IA chinesa não pode permanecer para sempre na posição de seguidora. Muitas vezes, dizemos que há uma diferença de um ou dois anos entre a IA chinesa e a dos Estados Unidos, mas a verdadeira diferença está entre originalidade e imitação. Se isso não mudar, a China será sempre apenas uma seguidora — portanto, alguma exploração é inevitável.
(...) Por que o Vale do Silício é tão inovador? Porque eles ousam fazer. Quando o ChatGPT foi lançado, a comunidade tecnológica da China carecia de confiança em inovação de ponta. Desde investidores até as grandes empresas de tecnologia, todos acharam que a diferença era grande demais e optaram por focar em aplicações em vez de inovação. Mas a inovação começa com confiança, algo que frequentemente vemos mais entre os jovens.
(...) A OpenAI não é um deus (OpenAI 不是神), eles não estarão necessariamente sempre na vanguarda”.
2) As Leis do Vale do Silício não são sagradas
No Vale, existe uma piada: "quem grita mais alto, dita o rumo". A ideia é que, ao espalhar sua visão de um assunto, você influencia empreendedores e investidores a seguirem na direção que te favorece. Por isso, tantos investidores de tecnologia produzem conteúdo (eu incluso).
Uma das formas mais eficazes de convencer pessoas é simplificar conceitos complexos. Uma maneira de fazer isso é cunhar termos.
Por exemplo: Lei de Moore – O poder de processamento dobra a cada dois anos, enquanto os custos caem. Lei de Metcalfe – O valor de uma rede cresce proporcionalmente ao quadrado do número de usuários.

Lei de Metcalfe
Esses atalhos intelectuais são úteis, mas não são leis da física. A gravidade existe independentemente da ação humana. Já a Lei de Moore só se mantém porque milhares de engenheiros continuam aprimorando chips.
No mundo da IA, surgiram as Leis do Escalamento, que afirmam: "quanto maior, melhor". Em tese, mais processamento, mais dados e mais parâmetros resultam em um modelo superior, desde que haja equilíbrio entre esses fatores.
A premissa é que todas as empresas tenham eficiência de processamento semelhante. No nível de negócios, essa lógica faz sentido. A empresa mais rica pode pagar por mais computação e mais dados, criando os modelos mais avançados. Como treinar uma IA custa mais de US$100 milhões, o jogo parecia reservado a poucos. E, entre esses poucos, o maior sempre venceria.
Mas o DeepSeek mostrou que essa equação não é tão simples. Mais dinheiro ≠ modelo vencedor. A inovação ainda pode superar a escala. Dias antes, a OpenAI anunciou um projeto de US$500Bi – um verdadeiro balde de água fria em qualquer empresa ou país que quisesse entrar na corrida. Esse parecia ser o ticket mínimo para competir. Mas o DeepSeek baixou essa barreira para menos de US$10 milhões.
A Lei do Escalamento precisa ser revista.
3) O Fim do Começo
Até semana passada, se você estivesse construindo um app sobre um modelo como o ChatGPT, chamado de “AI Wrapper” ninguém te levaria a sério.

Você ouviria algo como: “A OpenAI vai lançar uma atualização e acabar com seu produto.”
A narrativa dominante era simples: quem tivesse o melhor modelo dominaria a IA e por consequência a economia. Afinal, IA exige dados, poder computacional e dinheiro. A empresa que liderasse esse jogo abocanharia uma fatia maior do PIB global e resolveria grandes problemas da sociedade.
Sam Altman até disse: "A IA vai ensinar seus filhos, curar suas doenças e mudar o mundo". O que ele não disse é que, por IA, ele se referia à IA dele. A OpenAI começou como uma ONG, prometendo compartilhar avanços com a sociedade. No meio do caminho, mudou para um modelo fechado, cobrando caro por acesso aos seus sistemas.
A ideia parecia ser que um único modelo de IA iria coordenar tudo e alocar recursos da maneira mais eficiente possível. Quem controlasse esse modelo, controlaria o mundo. Mas enquanto DeepSeek, OpenAI, Microsoft, Meta e Anthropic brigam para ver quem faz o melhor modelo, os empreendedores que constroem sobre esses modelos têm a chance de capturar muito valor. Já dá para ver no horizonte que os modelos serão commodity.
O DeepSeek tem o melhor modelo hoje. Amanhã vem outro.
Infraestrutura, Plataforma, Aplicações
Pense na Internet. Quem realmente fez dinheiro com ela? Não foram as empresas que vendem roteadores ou banda larga. Foram as empresas que criaram aplicações: Google, Facebook, Instagram, Netflix.
Toda nova plataforma computacional segue um ciclo (IPA): Infraestrutura → Plataforma → Aplicações .
No início, Infraestrutura (hardware, redes, data centers) captura o maior valor
Com o tempo, a infraestrutura se torna commodity (mais barata e acessível)
O valor migra para Plataformas e Aplicações
Nos anos 2000, a Cisco, que fazia roteadores, chegou a ser a empresa mais valiosa do mundo. Mas conforme o valor migrou para plataformas (Google, AWS) e aplicativos (Facebook, Netflix), a Cisco perdeu relevância. Hoje vale menos da metade do que valia no auge da bolha da Internet.
Agora olhe para a IA:
Hoje, a Nvidia domina a infraestrutura com suas GPUs
No futuro, conforme os chips ficarem mais baratos e eficientes, o valor pode se deslocar para plataformas e aplicações
O DeepSeek sinaliza que esse movimento já começou. Ele mostrou que inovações na construção de modelos podem reduzir a dependência da infraestrutura, tirando valor de empresas como Nvidia e TSMC. Por outro lado, empresas como Palantir, que oferecem soluções baseadas em IA, se beneficiam.
A Verticalização das Gigantes
Não podemos subestimar Jensen Huang e Sam Altman. Eu nunca vou apostar contra Huang. São dois dos CEOs mais competentes que o setor de tecnologia já viu. Empresas como Nvidia e OpenAI sabem que, no longo prazo, infraestrutura vira commodity. Para evitar isso, estão se verticalizando:
A OpenAI quer controlar todo o stack, da infraestrutura (Stargate), passando pela plataforma (ChatGPT) até as aplicações (como seu novo agente lançado na semana passada). Está investindo em chips próprios e até em hardware para consumidores. Este último com Jony Ive, designer do Iphone
A Nvidia também está subindo no stack, oferecendo software e serviços. Não à toa, está se posicionando cada vez mais como uma empresa de robótica
Como isso afeta startups de IA?
A maioria das startups de IA no Brasil que conheço está focada em aplicações. Minha recomendação? Continuem construindo.
Essa oportunidade ainda está só no começo. Pare de se preocupar com o “E se a OpenAI fizer o que eu quero criar?”
Foque no que realmente importa:
Identificar um problema real
Resolver com um produto
Cobrar por isso
Criar barreiras de entrada, como dados, engajamento, efeito de rede
Estar próximo do cliente
Criar uma marca forte
Fazer um bom marketing
Isso sempre foi – e sempre será – valioso. As vantagens tecnológicas é que são temporárias.
Dica: Preste mais atenção no que o CEO da OpenAI faz do que no que ele fala.
Grande abraço,
Edu
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