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O que “Tech” quer com Trump?
E o que isso nos diz sobre o Futuro

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O artigo de hoje é primo da análise da semana passada sobre a Meta.
Empresas e investidores de tecnologia, historicamente, não se envolviam em eleições nos Estados Unidos. Quando o faziam, o apoio costumava ir para o partido Democrata. Na última eleição, isso mudou. O setor de tecnologia entrou na política com força e apoiou, em sua maioria, candidatos Republicanos.
Este texto tem um objetivo claro: explicar as razões econômicas por trás desse movimento e prever os próximos passos de investidores, empresas e empreendedores do Vale do Silício. Afinal, o que acontece no Vale afeta ecossistemas empreendedores no mundo todo, inclusive no Brasil.
Segue a versão de um minuto:
Existe um sentimento atual no Vale de descrença na regulação como aceleradora de inovação
O setor de tecnologia está mirando setores regulados. Portanto, um Presidente que prega desregulação é útil
Além dos motivos econômicos, existe uma crença quase que filosófica sobre o uso de tecnologia para trazer desenvolvimento e prosperidade
O que o setor de tecnologia quer com Trump?
Três coisas:
Tudo como de costume
Entrar em Setores Regulados
Colocar suas Filosofias em prática
Vamos analisar cada uma delas:
1) Tudo como de costume
Fusões e Aquisições
O ciclo virtuoso do Vale do Silício e do Venture Capital se completa quando uma startup é vendida ou faz um IPO.
Nos últimos anos, a janela de IPOs permaneceu fechada. Isso faz parte dos ciclos de mercado. Mas o volume de fusões e aquisições também caiu, e muitos culpam a administração Biden.
A gestão Biden adotou uma postura mais rigorosa em relação às grandes empresas de tecnologia, aumentando a supervisão e a regulamentação do setor. As críticas recaem principalmente sobre Lina Khan, presidente da Comissão Federal de Comércio (FTC, o CADE americano).

Lina Khan
Khan é conhecida por sua firmeza contra práticas monopolistas. Ela intensificou o escrutínio sobre grandes empresas de tecnologia, incomodando líderes do Vale. Suas ações focaram tanto em M&As quanto na venda agrupada de produtos, que, segundo ela, prejudica a competição e limita a escolha dos consumidores.
Um exemplo é a Microsoft. A FTC tentou bloquear a compra da Activision Blizzard, forçando a empresa a fazer várias concessões. Além disso, a FTC pressionou a Microsoft por vender o Azure junto com outros serviços.
Não é justo culpar Khan sozinha. A União Europeia também adotou, há anos, uma abordagem mais rígida sobre M&As em tecnologia. Mas, em um ambiente já hostil, Khan foi a gota d’água.
Durante sua campanha, Trump criticou a postura do FTC e prometeu uma gestão mais favorável aos negócios. O Vale deseja um retorno ao ritmo normal de fusões e aquisições.
Aprendendo Velhos Truques
O Vale do Silício fica a 2.851 milhas de Washington. Sabe como eu sei disso? Bill Gurley, um dos maiores investidores de tecnologia da história, deu uma palestra com esse título. Ele argumentou que essa distância permitiu o crescimento do Vale.

A apresentação é muito boa e vale assistir:
O ponto central é a captura regulatória nos EUA. Isso acontece quando órgãos reguladores protegem empresas estabelecidas, em vez de promover competição e defender o interesse público. Gurley argumenta que isso cria barreiras artificiais para novos entrantes, favorecendo modelos antigos e desincentivando a inovação. Exemplos incluem regulamentações complexas ou licenças caras que só as grandes empresas conseguem atender.
Essa crítica reflete o sentimento atual do Vale: descrença na regulação como aceleradora de inovação. Essa crítica não é totalmente justa. Regulações também podem criar novos setores, como aconteceu com a Internet. Mas não estou tentando argumentar a favor ou contra. Aqui, o objetivo é refletir a opinião popular do setor de tecnologia.
Ao entender como o "jogo funciona", os investidores do Vale decidiram entrar de cabeça. Um exemplo: um fundo doou US$ 47 milhões para candidatos que apoiavam tecnologia blockchain e crypto. O plano funcionou. Não por acaso, os cryptoativos se valorizaram 30% após a eleição. Com uma presença mais forte em Washington, o Vale espera equilibrar o jogo para as startups.
2) Entrar em Setores Regulados
A Estratégia do Dinamismo Americano
Google e Meta dominam a indústria de publicidade e tem valor de mercado somado próximo a US$4 trilhões. Ainda assim, publicidade representa apenas 1% a 2% do PIB global, um segmento pequeno da economia.
Existem setores gigantes que o Vale do Silício ainda não conquistou, como educação, saúde, energia, indústria & manufatura, construção, defesa, aeroespacial e segurança.
Por quê? Uma razão é que eles lidam mais com hardware do que software, algo historicamente desafiador para o Vale. Outra é o forte envolvimento com o governo, seja como cliente, regulador, competidor ou um stakeholder chave.
As empresas e fundos de tecnologia querem dominar esses setores. Avanços em inteligência artificial e robótica tornam possível unir software e hardware, permitindo que dados e tecnologia sejam integrados a diversas atividades pela primeira vez.
Estamos falando de oportunidades enormes. Primeiro pelo seu simples tamanho: por exemplo, saúde e educação representam cerca de 10% e 4% do PIB global, respectivamente. Segundo, por serem altamente inflacionários e ineficientes.

Os investidores querem financiar o Google da Educação, a Amazon da Saúde, a próxima Boeing, a empresa que vai disruptar o setor de energia. Já as Big Techs querem desenvolver negócios para abocanhar uma parte dos lucros desses segmentos da economia. Para isso, desenvolver uma relação mais próxima com governo é fundamental. E isso não é algo pensado no váculo. Exemplos recentes mostram startups prosperando em parceria com o governo, algo impensável anos atrás. SpaceX, em aeroespacial; Anduril, em defesa (ambas foram temas de artigos do bsb aqui e aqui); e Palantir, avaliada em US$ 175 bilhões. Elas foram as pioneiras que mostraram o caminho.

Equipamento da Anduril
Onde o Vale do Silício vê oportunidade nestes setores? Algumas ideias:
Energia: o resurgimento da tecnologia Nuclear (assunto coberto em artigo aqui), impulsionado pela demanda de Inteligência Artificial
Espaço: redução do custo de transporte espacial possibilita atividades econômicas fora da Terra, como data centers e desenvolvimento de medicamentos
Saúde: serviços personalizados, monitoramento contínuo e avanços em genética antienvelhecimento (assunto coberto em artigo aqui)
Educação: ensino ajustado ao ritmo do aluno por IA, democratizando o acesso a tutores personalizados
Indústria: fábricas automatizadas, aproximando a produção do consumidor final
Críticos chamam esse movimento de “Complexo Tecnológico-Industrial”. O termo faz alusão ao “Complexo Militar-Industrial”, mencionado por Dwight D. Eisenhower em 1961, alertando sobre os riscos de concentração de poder entre forças armadas, indústria de defesa e governo. Não estou dizendo que esse movimento é bom ou ruim. O Vale tem muitos acertos, mas já errou antes, como na bolha da Internet, na bolha de Greentech e nos exageros de 2020-22. No Brasil, esse movimento deve estimular empreendedores a explorar novos setores e atrair investidores. Hoje, há um foco excessivo em B2B, SaaS e Fintechs.
3) Colocar suas Filosofias em prática
Os dois primeiros motivos já explicam a mudança no setor de tecnologia nas eleições. Mas há outro fator, menos econômico, que também merece destaque: a oportunidade de aplicar a filosofia do Effective Accelerationism (e/acc). Essa filosofia busca promover avanços tecnológicos e sociais de forma coordenada e intencional.
O objetivo é maximizar o progresso humano enquanto minimiza riscos. O e/acc rejeita tanto a estagnação quanto o progresso descontrolado, propondo um caminho intermediário que combina pragmatismo e ambição.

Effective Accelerationism, de acordo com o DALL-E
Por exemplo, enquanto a ativista climática Greta Thunberg defende reduzir viagens para diminuir a pegada de carbono, o e/acc propõe o contrário. A ideia é continuar viajando, mas investir em tecnologia para reduzir emissões e capturar o carbono já emitido.
Os críticos apontam que essa filosofia, além de tecnocêntrica, pode negligenciar questões como a concentração de poder tecnológico e desigualdades sociais. Também há preocupações com os impactos imprevisíveis de inovações disruptivas, como automação e biotecnologia.
Vale lembrar que, atualmente, apenas sete empresas representam mais de 30% do valor do índice S&P 500. A critica não é sem mérito.
Com Trump, empresários como Elon Musk e o investidor Marc Andreessen encontraram a chance de influenciar a formação do governo. Um exemplo disso é o envolvimento de diversos empresários de tecnologia no departamento de eficiência governamental, conhecido como DOGE.
Os Estados Unidos estão entrando em um experimento. Pela primeira vez, aqueles que estão na fronteira do conhecimento e aplicação de tecnologia tem a promessa de acesso e capacidade de influenciar regulações. Aqui do Brasil vamos poder assistir e julgar o que vale a pena nos inspirarmos ou não.
Grande abraço,
Edu
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